Por que os primeiros cristãos não eram sedentos por milagres?

O texto que narra a ressurreição de Dorcas é muito comovente (At 9.36-43), os irmãos pedem que Pedro vá até eles depois desta nobre mulher, que costumava fazer roupas para doar às viúvas e aos menos afortunados da comunidade, adoece e morre. Pedro ao visita-los é informado das obras caridosas daquela mulher, é apresentado a ele as roupas tecidas por suas próprias mãos, as lágrimas escorrem pelos rostos entristecidos de quem se viu suprido e amado por Dorcas através de seu gesto tão simples e ao mesmo tempo tão afetuoso. Imagino o que aquelas pessoas estavam sentindo, minha esposa costuma fazer toalhinhas de crochê para presentear às pessoas, ela ora por elas enquanto trabalha nas toalhinhas. Quando as pessoas recebem o presente de minha esposa se comovem com o gesto e se emocionam ao saber que junto com o trabalho houve oração por elas. Imagino que Dorcas pensava também em cada pessoa, é provável que fizesse as roupas na medida, devia naturalmente lembrar-se da pessoa enquanto tecia, e quem sabe cobria também de oração quem seria agraciado com as vestes novas.
Pedro se comove com as lágrimas das viúvas que foram socorridas por Dorcas, e ali mesmo no cenáculo onde o corpo da bondosa mulher jazia Pedro pede que todos se retirem. Em seguida Pedro ajoelha-se e pede que Dorcas se levante, a mulher que estava morta atende, ele a toma pela mão e à leva até os irmãos, em especial as viúvas que ao contemplar o milagre devem ter saído do pranto para a plena euforia.
Fico pensando em por que os irmãos não ousaram convidar Pedro para vir posteriormente ressuscitar outros mortos. Não há nenhum registro bíblico de outra ocasião onde Pedro repetiu o feito. Ao que parece uma consciência permeava a comunidade de fé, Deus não era um instrumento o qual poderiam recorrer para suprir suas necessidades particulares, antes, era um Deus que manifestava-se livremente dentro de sua própria soberania e vontade. E isso não os incomodava nenhum um pouco, pois poderiam ser surpreendidos com um milagre gracioso de ressurreição ou receberem o consolo do Espirito Santo que lhe fazia lembrar diariamente do Reino eterno ao qual pertenciam.
Pedro não se tornou um famoso milagreiro para os primeiros cristãos, isso aparentemente não tinha sentido para eles. Jesus havia sinalizado o Reino, desde então eles sabiam que os milagres serviam apenas para revelar parte do futuro que lhes aguardava, se o presente por um momento se tornava semelhante ao futuro, eles se alegravam, mas se cada coisa se mantivesse em seu lugar, não se aterrorizavam ou enfraqueciam na fé, sabiam que o maior milagre já havia sido realizado, Deus estava entre eles como nunca havia estado antes
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Sobre Eduardo Cruz

Não sou bem um escritor, sou um pastor que escreve.

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